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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

As Horas

Autor: Michael Cunningham
Editora: Gradiva
Classificação: *****

Inspirado no universo da escritora inglesa Virgínia Woolf (1882-1941), este extraordinário romance, vencedor do Pulitzer de 1999, conta a vida de três mulheres, cujas vidas sintetizam as desilusões que marcaram a humanidade ao longo do século XX. Pode ser definido como a saga da consciência de três mulheres - uma real, duas fictícias - em busca de algum tipo de inserção no mundo "normal", tendo como pano de fundo constante a presença palpável e inquietante da loucura e da morte. A personagem real, espécie de matriz iluminadora de todo o livro, é Virginia Woolf, cujo suicídio, em 1941, é narrado de forma comovente e realista logo nas primeiras páginas. Ela, mais Laura Brown, uma dona de casa angustiada num subúrbio de Los Angeles, em 1949, e Clarissa Vaughn, editora de sucesso na Manhattan de hoje, são as protagonistas deste livro apaixonante. Presenciamos, em capítulos alternados, um dia na vida de cada uma delas. São três histórias que poderiam ser só uma, que como todas as histórias que nos rodeiam fazem parte intrínseca das nossas vidas.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O cemitério de Praga

Autor: Umberto Eco
Editora: Gradiva
Classificação: *****

Durante o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres num esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades do Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, o aumento gradual daquela falsificação conhecida como Os Protocolos dos Sábios Anciãos de Sião, que inspirará a Hitler os campos de extermínio, jesuítas que tramam contra os maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam os padres com as suas próprias tripas, um Garibaldi artrítico com as pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemonteses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem os ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que entre os vapores do absinto planeiam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários, testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Óptimo material para um romance-folhetim de estilo oitocentista, para mais, ilustrado com os feuilletons daquela época. Há aqui do que contentar o pior dos leitores. Salvo um pormenor. Excepto o protagonista, todos os outros personagens deste romance existiram realmente e fizeram aquilo que fizeram. E até o protagonista faz coisas que foram verdadeiramente feitas, salvo que faz muitas que provavelmente tiveram autores diferentes. Mas quem sabe, quando alguém se movimenta entre serviços secretos, agentes duplos, oficiais traidores e eclesiásticos pecadores, tudo pode acontecer. Até que o único personagem inventado desta história seja o mais verdadeiro de todos, e se assemelhe muitíssimo aos outros que estão ainda entre nós.

sábado, 28 de maio de 2011

Cães pretos

 Autor: Ian McEwan
Editora: Gradiva
Classificação: *****

A queda do muro de Berlim, o fim do comunismo, a exacerbação dos conflitos étnicos na Europa deste fim de século reavivaram terríveis fantasmas e sentimentos primitivos do ódio e terror. A face histórica do mal, com a complexidade dos conflitos morais que o envolvem, é revelada neste livro, ao mesmo tempo um thriller surpreendente e uma terrível fábula. Ian McEwan usa a imagem da queda do muro que separava o mundo capitalista do comunista, como pano de fundo para uma história de amor mal resolvido. O que está em jogo é menos o casamento desfeito de June e Bernard e mais a dissociação, causada pela guerra, do espírito humano. Simbolicamente, June ficou com a face mística e Bernard, com a racionalista. Um casal que nunca mais conseguiu viver junto e nunca deixou de se amar. Velhos, ela à beira da morte, resolvem enfrentar os velhos fantasmas ao revelar a um quase estranho, suas próprias versões para o incidente que os separou.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Prosa Completa

Autor: Woody Allen
Editora: Gradiva, Produções Fictícias
Classificação: ****

Pela mão da Gradiva e das Produções Fictícias, a Prosa Completa de Woody Allen reúne de uma penada as suas três colectâneas de textos de humor, a saber: Sem Penas (Without Feathers), Para acabar de vez com a Cultura (Getting Even) e Efeitos Secundários (Side effects). É verdade que a faceta mais conhecida de Woody é a cinematográfica, filmes como Bananas, Manhattan, Vigaristas de Bairro ou Scoop, são pequenos marcos na comédia, revelando as suas capacidades enquanto actor e humorista. Note-se que Woody foi ainda realizador, por exemplo, recentemente em Match point. Recuperando o tema, a Prosa Completa é uma belíssima compilação, que resulta num óptimo livro de humor, com bons argumentos (não se utiliza a ordinarice barata ou a simples buçalidade) construindo e inventando pequenos guiões facilmente adpatáveis para outras formas culturais, e consegue criar ainda personagens e enredos que têm tanto de desproporcionado como de metafórico. Sublinhando, são diversas as personagens criadas, que acabam também por caracterizar um pouco a sociedade americana que tanto envolverá Woody Allen e a sua cidade de Nova Iorque.
Impregnada pelo neurótico non-sense que caracteriza Mestre Allen, esta antologia deve ser obrigatoriamente digerida em doses muito pequenas, de modo a se poder apreciar com calma todos os pormenores e devaneios presentes em cada texto.