quinta-feira, 9 de Julho de 2009

A Filha da Floresta - Trilogia Sevenwaters

Autor: Juliet Marillier
Editora: Bertrand Editora
Classificação: *****

Depois de "As brumas de Avalon" de Marion Zimmer Bradley, achei que nenhuma outra obra poderia ter em mim o mesmo efeito. Felizmente, enganei-me. Julliet Marillier conseguiu criar uma atmosfera fabulosa, cheia de magia, que me transportou para o meu imaginário infantil, para os contos infantis onde havia sempre uma madrasta má e príncipes e princesas que lutavam contra a sua tirania. Foi muito interessante, também, conhecer alguma coisa sobre as lendas celtas de origem irlandesa. Por outro lado, apreciei a forma como a história é contada, pelo ponto de vista feminino. Quem ler toda a trilogia verá, são três histórias que abrangem três gerações de mulheres da mesma família. Mas a mais recente novidade é a edição de um novo livro da saga Sevenwaters. O título desta última obra é O Herdeiro de Sevenwaters, onde acompanhamos as aventuras de Clodagh. Vale a pena conhecer a obra e a autora.

quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Abriu hoje a 79ª Feira do Livro de Lisboa!

Podem encontrar todas as informações disponíveis neste endereço. A programação cultural é variada, abrangendo conferências, debates, espectáculos, lançamentos, workshops e sessões de autógrafos, entre outros. Existe também um blogue, onde se vai dando conta das notícias mais recentes sobre a Feira. A única coisa da qual senti a falta foi do "Livro do Dia", informação preciosa para quem visita a Feira diversas vezes e aproveita as promoções. É uma pena. A minha primeira incursão será já no próximo Sábado. Boas leituras!

sábado, 25 de Abril de 2009

Desgraça

Autor: J.M. Coetzee
Editoral: Edições D. Quixote
Classificação *****

Um professor com a vida estabilizada vê a sua vida desmoronar-se ao ser acusado de assédio sexual por uma jovem aluna, com quem teve um caso, Cai em desgraça entre seus pares, perde o cargo na universidade e, para escapar de seus problemas na Cidade do Cabo, refugia-se na pequena fazenda de sua filha, a única pessoa com quem ainda mantinha um vínculo afectivo.

Descobre, então, uma violência que ele julgava não ser possível na África do Sul pós-apartheid. Na luta por um pedaço de terra, é a barbárie que dita as relações entre as pessoas. Enquanto isso, na universidade o ambiente politicamente correcto chega ao extremo de considerar criminoso que um professor faça sexo com uma de suas alunas, ainda que esta seja maior de idade. O romance de Coetzee constrói-se a partir do choque deste professor com as mentalidades que o rodeiam, numa sociedade decadente onde a cada passo é preciso, antes de mais, sobreviver e onde se cruzam um passado de exploração e um presente de ajuste de contas. Coetzee, um dos mais respeitados escritores sul-africanos contemporâneos, já recebeu vários prémios em França, Irlanda e Israel e foi o primeiro autor agraciado duas vezes com o Booker Prize, o mais importante da Grã-Bretanha e um dos principais da cena literária internacional. Foi prémio Nobel em 2003.

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Uma casa na escuridão

Autor: José Luís Peixoto
Editora: Temas e Debates
Classificação: *****

J.L. Peixoto será, na minha opinião, um dos mais proeminentes jovens escritores portugueses. Há quem lhe atribua parecenças com José Saramago. Talvez. No entanto, Peixoto é mais poético, as suas frases têm um sentido poético muito intenso, mesmo quando os seus livros são de prosa. Este "Uma casa na escuridão" é um livro sobre o Amor, a solidão, a crueldade, a guerra, o sonho. É um livro que nos abre a muitas sensações e emoções - a tristeza, a raiva, a pena, a alegria, a revolta, e poderia continuar por aqui fora. Aconselho também a leitura do livro de poemas editado em simultâneo com este, que se chama "A casa. A escuridão". É um livro de poesia, com poemas dedicados a cada um dos personagens do livro em prosa. São ambos fabulosos. Aconselho também o restante da obra de Peixoto, jovem autor de quem ainda iremos ouvir falar muito! - "Morreste-me"; "Uma criança em ruinas" e "Nenhum Olhar". Boas leituras!...

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Todo-o-Mundo


Autor: Philip Roth
Editora: Publicações D. Quixote
Classificação ****

Este romance de Philip Roth é uma história de perda e arrependimento, de combate de um homem contra a mortalidade. A personagem principal é um criativo de sucesso numa agência de publicidade de Nova Iorque, é pai de dois filhos, de um primeiro casamento, que o desprezam, e de uma filha, de um segundo casamento, que o adora. É o irmão querido de um bom homem, cuja boa forma física virá a despertar nele uma amarga inveja, e é o solitário ex-marido de três mulheres muito diferentes com quem teve casamentos desastrosos. É um homem que se tornou naquilo que não quer ser, sentindo-se destroçado pela decadência dos seus contemporâneos e perseguido pelos seus próprios medos, principalmente a debilidade física. Depois do seu terceiro divórcio e depois de se reformar, este homem retira-se para a sua aldeia natal, para se dedicar à pintura e recordar os bons e maus momentos da sua vida. Em sete anos, é operado sete vezes, devido a problemas cardiovasculares. Enfrentando a solidão e morte por várias vezes, arrependido de muitas opções que fez ao longo da sua vida, esta é a história de um homem qualquer, que se questiona sobre o sentido da vida ou, quem sabe, pela sua ausência.

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

79ª Feira do Livro de Lisboa

A 79ª Feira do Livro de Lisboa já tem data marcada. Realiza-se entre 30 de Abril e 17 de Maio de 2009, no Parque Eduardo VII. Para além de uma imagem renovada, também os horários sofreram alterações, encerrando agora mais cedo. Estão, para já, inscritas 140 editoras e o país-tema convidado será o Brasil.

Horários:

Abertura:
2ª a 6ª feira: 12:30
Sábados, Domingos e Feriados: 11:00

Encerramento:
2ª a 5ª feira:20:30
6ª feira e Sábados: 23:00
Domingos e Feriados: 22:00
Último fim de semana: 24:00

domingo, 12 de Abril de 2009

Lirael - A rapariga do glaciar

Autor: Garth Nix
Editora: Editorial Presença
Colecção: Via Láctea
Classificação: *****

Este livro é a continuação da história iniciada em "A missão de Sabriel". Sabriel é filha de Abhorsen, um necromante que tem como missão afastar a magia livre e manter os que já morreram na Morte, impedindo-os de regressar e causar desequilíbrios no mundo. No livro anterior Sabriel ajudou a aprisionar Kerrigor, um ser malígno responsável pela libertação de uma série de monstros. No final, o trono do Reino Antigo foi restituído a Touchstone. Depois da morte do seu pai, Sabriel torna-se a nova Abhorsen. Neste livro, história desenrola-se alguns anos depois. Depois da derrota de Kerrigor os anos têm sido de paz, mas algo está para acontecer. Só não se sabe bem o quê... Paralelamente, temos a história de Lirael, uma jovem que vive no Glaciar das Clayr. As Clayr têm o dom da Visão mas Lirael, aos 14 anos, ainda não "despertou", o que lhe causa uma grande tristeza, não se sentindo uma verdadeira Clayr. Isto vai levá-la a abandonar o Glaciar onde vive, na companhia de um ser muito estranho mas que é o seu fiel companheiro - a Cadela Desavergonhada. Lirael parte à procura do seu destino e, sem o saber ainda, é nela que se deposita o futuro do Reino Antigo. Na sua jornada vai cruzar-se com Sameth, filho de Sabriel e Touchstone, e juntos vão travar uma batalha contra as forças do mal que ameaçam o Reino Antigo. Este é um livro cheio de fantasia e magia. Dentro do género do fantástico, creio ter sido um dos melhores livros que li. Já no primeiro volume a história me tinha criado uma grande expectativa, agora plenamente confirmada. Recomendo vivamente!

sexta-feira, 10 de Abril de 2009

A hora de Sertório

Autor: João Aguiar
Editora: Edições ASA
Classificação: ****

"A Hora de Sertório"; é um romance histórico, um retrato bastante fiel da época de crise da República romana, mais concretamente aquando da conquista das províncias hispânicas por parte de Roma (século I a.C.). Evidencia-se o papel importante de Quinto Sertório, general romano, que numa época marcada por uma forte agitação social e fazendo parte da lista dos proscritos de Roma, chega à Península Ibérica, desenvolvendo uma política que visa captar apoios dos povos hispanos, através da adopção de medidas populares. O seu objectivo era organizar um modelo de governo que iria reproduzir na Península o que para ele constituía um modelo - Roma.

O percurso narrativo do livro é-nos dado por três personagens: Euménio de Rodes, filósofo grego; Lúcio Hirtuleio, o amigo mais fiel de Sertório; e Medamo, um jovem Lusitano filho adoptivo de Euménio de Rodes, que irá engrossar as fileiras das suas tropas. O Quinto Sertório que nos é dado a conhecer por João Aguiar é um homem duro, um militar exímio, dotado de uma grande inteligência e calculismo. Por outro lado, temos também um homem sensato, justo e, por vezes, até amável. É uma personagem que não se deixa levar por emoções, paixões ou sentimentos mais banais, quando se trata de alcançar objectivos propostos. Uma primeira e rápida leitura da obra faz-nos pensar em Sertório como um herói e um libertador para os povos hispânicos, mas uma leitura mais atenta faz-nos perceber que, afinal, Sertório luta para instaurar na Península Ibérica um modelo de Estado Romano (da forma como ele o concebe e não como o que existe na realidade do seu tempo), tendo-o a ele como chefe de Estado.

Resumindo, de um lado temos o relato histórico, factual, onde se relatam os acontecimentos de uma forma objectiva (sem com isso se retirar a subjectividade do autor, patente na sua clara preferência pelo nosso herói); por outro lado, temos um romance, cujo autor teve a preocupação de se manter fiel à História, mas com traços literários próprios do género, utilizando a ficção onde os factos históricos não eram suficientes para preencher toda a acção e onde havia lacunas históricas. Um livro notável de um autor que vale a pena ler.

quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Os corvos de Avalon

Autores: Marion Zimmer Bradley e Diana L. Paxson
Editora: Dífel
Classificação: ****

Marion Zimmler Bradley foi uma das autoras que marcou a minha adolescência. As brumas de Avalon marcaram-me profundamente e, desde então, já percorri toda a sua bibliografia. Os corvos de Avalon são a obra que antecede A casa da floresta mas, como muitas vezes acontece em Portugal, as obras não são editadas pela ordem que o autor as pensou mas sim indo ao encontro de outras lógicas, aparentemente inexplicáveis. No centro deste livro está, uma vez mais, a conquista romana da Bretanha e a rebelião conduzida por Boudica, rainha celta, e por Lhiannon, a jovem que viria depois a tornar-se numa sacerdotisa da Ilha dos Druidas. Quando as terras Icenas foram anexadas ao Império, Boudica apela à tribos bretãs e conduz o seu povo na resistência contra os exércitos ocupantes de Roma. Neste livro, Marion Zimmler Bradley continua a povoar a narrativa com personagens femininas notáveis, como é seu apanágio na sua literatura épica.

quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Mafalda Inédito

Autor: Quino
Editora: Teorema
Classificação: ****

A Mafalda tem sete anos, odeia sopa e racismo e adora política. Bem, em comum comigo só a parte da sopa não coincide. A Mafalda faz parte do meu imaginário infantil. A leitura das suas tiras acompanhou-me desde miúda, fazia colecção das «agendas da Mafalda» para poder depois recortar as tiras e colar nos cadernos da escola. Estes inéditos são tiras que nunca tinham sido publicadas, ou porque ficaram esquecidas na gaveta de Quino, ou porque algumas eram politicamente incorrectas à época. Vêem agora a luz do dia, para gáudio de todos os fãs. Classifiquei com 4 estrelas apenas porque, no seu conjunto, não superam outros álbuns editados, mas Mafalda será sempre 5 estrelas!

segunda-feira, 16 de Março de 2009

O socialismo traído - por trás do colapso da União Soviética

Autores: Roger Keenan e Thomas Kenny
Editora: Editorial Avante!
Classificação: ****

Quando a reforma de Gorbatchov começou a produzir o desastre económico e a desintegração nacional, por que não mudou Gorbatchov de rumo, ou por que não o substituíram os outros líderes do Partido Comunista? Por que estava aparentemente tão frágil o socialismo soviético? Por que razão os líderes subestimaram tanto o separatismo nacional? O desaparecimento da União Soviética era inevitável? Estas e outras questões são colocadas neste livro, que aborda o colapso do socialismo na União Soviética de uma forma diametralmente oposta à literatura mais comum sobre a temática.

sexta-feira, 13 de Março de 2009

O criado secreto

Autor: Daniel Silva
Editora: Bertrand Editora
Classificação: ****

O meu espírito divide-se. Os livros de Daniel Silva são policiais com um óptimo enredo e a forma como a sua escrita se desenvolve não permite que se abandone a leitura até que a história acabe e mais uma vez Gabriel Allon cumpra a sua missão histórica, um anjo vingador do povo escolhido de Deus. Por outro lado, enfática e sistematicamente o autor apresenta como «maus da fita» o povo palestiniano, os muçulmanos, não se coibindo, mesmo, de os rotular na generalidade como terroristas. Nos seus livros, o herói é o povo judeu, tendo como expoente máximo um agente da secreta israelita. Até agora, a narrativa tem valido por si e as histórias são empolgantes, posso dizer mesmo que é do melhorzinho que apareceu nos últimos tempos no campo do policial, mas esta coisa de chamar terroristas aos árabes, assim a seco, chateia-me.

quinta-feira, 12 de Março de 2009

A sombra do vento

Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: D. Quixote
Classificação: *****

A Sombra do Vento é um livro de mistério, sobre o mistério dos livros e dos amores perdidos. O enredo mistura géneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. A história desenvolve-se na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra. O romance de Zafón, além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias. Uma obra sedutora, comovente e impossível de largar.

quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Brancos estúpidos e outras desculpas esfarrapadas para o estado na nação

Autor: Michael Moore
Editora: Temas & Debates
Classificação: ****

Este livro faz um retrato sobre o estado da nação Americana e todas as consequências da "governação" de George W. Bush, considerada por Michael Moore como o maior embuste da História Americana. Com uma visão irónica, Moore desmonta de forma inteligente as várias ilegalidades cometidas na eleição de Bush, bem como analisa a forma como a América, país das liberdades e das oportunidades, lida com a comunidade afro-americana, e ainda denuncia os ataques ambientais perpetrados quer por administrações democratas ou republicanas. Um livro indispensável, que aborda os problemas do “sistema perfeito” que caracteriza a sociedade americana do século XXI. Sem hipocrisias.

quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

A passo de caranguejo

Autor: Umberto Eco
Editora: Difel
Classificação: ****

Os escritos reunidos neste livro foram publicados entre o início de 2000 e o final de 2005, os anos do 11 de Setembro, das guerras do Afeganistão, da instauração de um regime de populismo mediático em Itália. Ao lê-los, o leitor comprovará que desde o fim do último milénio temos vindo a caminhar para trás a um ritmo dramático. Quase parece que a História, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a desenrolar em si própria, caminhando velozmente a passo de caranguejo. Este livro não pretende explicar o que devemos fazer para reencontrar a direcção certa, propõe-se apenas travar por alguns instantes este movimento retrógrado.

domingo, 8 de Julho de 2007

A última feiticeira

Autor: Sandra Carvalho
Editora: Editorial Presença
Colecção: Via Láctea
1º Volume da trilogia A Saga das Pedras Mágicas
Classificação: *****

A Última Feiticeira é o primeiro volume de uma trilogia intitulada A Saga das Pedras Mágicas. A autora é portuguesa e esta é a sua estreia literária. A acção passa-se num tempo em que os sábios se recolhiam nas florestas para perpetuarem o Conhecimento que em eras passadas lhes fora transmitido pelos Seres Mágicos. Mais precisamente, depois de a feiticeira Aranwen ter renunciado aos seus poderes mágicos para se casar com um mortal por quem se apaixonara. Para que esses poderes não se perdessem, ela guardou-as dentro de sete lindíssimas pedras formando um colar que viria a ser muito cobiçado.

O berço da heroína desta história, Catelyn, e dos seus cinco irmãos varões, situa-se na Grande Ilha, cada vez mais fustigada pelos ataques dos Viquingues, nas suas estranhas embarcações mais velozes que o vento. Os senhores locais formam uma aliança para os repelirem, consolidando essa política através de casamentos combinados entre os herdeiros das grandes famílias. Depois de uma infância paradisíaca, Catelyn cresce num mundo cada vez mais violento, assistindo impotente às manipulações da maldosa Myrna, a protegida do homem com quem o pai de Catelyn destinou casá-la. Só a Pedra do Tempo que se ergue imponente sobre o Norte do mundo guarda o segredo de um poderoso pacto de amor e sangue.

quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Uma conjura de saltimbancos


Autor: Albert Cossery
Editora: Antígona
Classificação: ****

Um chefe de polícia com a obsessão das conjuras revolucionárias, um informador revoltado, um jovem que vai estudar para o estrangeiro e regressa com um diploma falso, um actor míope, uma saltimbanca ciclista, um rico senhorio canalha, um estudante de veterinária que vem receber uma herança, se perde de amores e acaba assassinado, notabilidades que desaparecem sem deixar rasto, jovens que conspiram, sim mas para se divertirem, para não se deixarem esticar pela roda infatigável do hábito e da rotina – tudo isto no quadro de uma cidade de província, onde aparentemente não se passa nada, mas no fundo fervilham os mistérios e as maravilhas.

Mil novecentos e oitenta e quatro

Autor: George Orwell
Editora: Antígona
Classificação: ****
1984 é uma sátira de aparência naturalista, que trata das realidades e do terror do poder político, não apenas num determinado país, mas no mundo - num mundo uniformizado. Foi escrito como um ataque a todos os factores que na sociedade moderna podem conduzir a uma vida de privação e embrutecimento, não pretendendo ser a profecia de coisa nenhuma.

A previsão do mundo descrito por Orwell alicerça-se num vasto conjunto de elementos políticos e tecnológicos comuns a todas as sociedades industriais. Do pós-guerra aos nossos dias, a imbricação económica dos diferentes sistemas políticos, tendendo à sua uniformização e a evolução no sentido totalitário, por via da tecnologia, das chamadas sociedades democráticas, tornam hoje de imediato reconhecíveis situações e personagens, não como puras invenções, mas como conjecturas realizadas ou em realização.

O Big Brother que Orwell imaginou em 1949 estará muito longe da realidade dos nossos dias?

quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Ensaio sobre a cegueira

Autor: José Saramago
Editora: Editorial Caminho
Classificação *****

Toda a gente cega. Eis a proposição do romance de José Saramago. A cegueira traz consigo a desordem social, como se pela porta aberta pelo medo entrassem os animais soltos que vivem em nós acorrentados pela razão.

Ensaio sobre a Cegueira é um livro duro, de uma violência verbal que vai desorganizando o mundo até o reduzir a lugar de escuridão, onde entra com timidez, aqui e além, um raiozinho de sol. É como se o autor não ousasse escrever a felicidade ou a sua hipótese.

Porquê um livro assim? José Saramago escora o romance numa indignação e num projecto ético. A necessidade de transcendência, que se inscreve numa linha de coerência anterior e pessoalíssima – lutas que ele vai entretendo com o Homem e a sua ideia de Deus, que faz cair nos magros ombros do Homem a responsabilidade final do seu destino – leva-o agora à negação do humano depois de ter negado o divino. (...) Trata-se do juízo final da Razão.

Clara Ferreira
Alves

In Expresso


O Ensaio sobre a Cegueira terá sido, talvez, o livro de saramago que mais gostei. O forte poder da narrativa, a maneira como ele nos transporta para aquele mundo terrível, onde a crueldade do ser humano é a tónica fundamental, é de um realismo arrepiante. Sendo certo que é um dos livros de Saramago mais fácil de ler não é, contudo, o mais fácil de "digerir", pois é praticamente impensável que o ser humano possa ser tão estúpido e cruel. Não é fácil transmitir o que se sente ao lê-lo. Só mesmo a sua leitura poderá revelar o universo de sensações que Saramago nos criou. Vale bem a pena.

Iraque - Assalto ao Médio Oriente

Autor: Noam Chomsky
Editora: Antígona
Classificação: ****

O Iraque tem as segundas maiores reservas de petróleo no mundo, muitas delas subexploradas ou por explorar. A Arábia Saudita está à cabeça, o Iraque em segundo lugar, e as reservas são substanciais. Calcula-se que são muito superiores às da região do Cáspio e da Ásia Central e Oriental. Podemos ter a certeza de que os Estados Unidos não vão permitir que isto fique fora do seu controlo e certamente não deixarão que se afirme a influência dos seus rivais como, por exemplo, a França e a Rússia, que agora detém o domínio sobre o petróleo iraquiano. Portanto, de uma forma ou de outra, os Estados Unidos farão o que puderem, e podem muito, para voltar a ganhar controlo sobre esses recursos. Isto não tem nada a ver com terrorismo, não tem nada a ver com as atrocidades de Saddam Hussein. Sabemos bem disso.

quinta-feira, 14 de Junho de 2007

A manopla de Karasthan

Autor: Filipe Faria
Editora: Editorial Presença
Colecção: Via Láctea
Classificação: ****
Na imensidão cósmica existe um mundo, Allaryia, de grandes heróis e vilões infames, de seres de uma beleza indescritível e criaturas maléficas de uma fealdade atroz, nações poderosas e impérios titânicos. Depois de muitas eras que alternaram entre a paz e a discórdia, encontramos neste primeiro volume das Crónicas de Allaryia um tempo de aparente tranquilidade, de uma calma inquietante, semelhante ao silencio que antecede a tempestade.

O povo de Allaryia perdeu o seu campeão – Aezrel Thoryn, provavelmente morto numa batalha contra o Flagelo, a força das trevas, em Asmodeon – e mais do que nunca precisa de protecção. Aewyre Thorin, o filho mais novo do saudoso rei, pega em Ancalach, a espada do seu pai, decide descobrir o que realmente lhe aconteceu e parte a caminho de Asmodeon.

Este livro é o primeiro de sete volumes que compõem as Crónicas de Allaryia, e com o qual Filipe Faria ganhou o Prémio Branquinho da Fonseca, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian. Uma saga poderosa, capaz de igualar o que de melhor se faz por este mundo fora no campo da literatura do fantástico.

Uma morte súbita e terrível

Autor: Anne Perry
Editora: Gótica
Classificação: ****

A morte pode ser um lugar-comum no Royal Free Hospital de Londres, mas o crime seguramente não é. Quando o corpo de Prudence Barrymore - uma menina de boas famílias e enfermeira dedicada - é descoberto no meio de um monte de roupa suja, ninguém, bem ou mal nascido, pode estar livre de suspeitas. Mas a polícia, liderada pelo Inspector-Chefe Runcorn, parece concentrar os seus esforços em acusar o Dr. Kristian Beck, por ser estrangeiro. Preocupada e desagradada com o rumo das investigações, Lady Callandra Daviot, da Comissão de Administradores, pede ao investigador William Monk para se ocupar do caso.

Mais uma história de mistério e suspense passado na época vitoriana, que Anne Perry tão bem retrata.

domingo, 10 de Junho de 2007

História da Beleza

Autor: Umberto Eco
Editora: Círculo de Leitores
Classificação: *****


Este livro parte do princípio de que a Beleza nunca foi algo de absoluto e imutável, mas assumiu rostos diferentes segundo o período histórico e a região; não só no que diz respeito à Beleza física (do homem, da mulher, da paisagem), mas também em relação à Beleza de Deus ou dos santos ou das ideias.

Num mesmo período histórico, as imagens dos pintores e dos escultores pareciam celebrar um certo modelo de Beleza, a literatura celebrava outro. É possível que certos líricos gregos falem de um tipo de graça feminina que somente veremos realizada pela pintura e pela escultura de uma época diferente.

Por outro lado, basta pensar no espanto que sentiria um marciano do próximo milénio que descobrisse um quadro de Picasso paralelamente com a descrição de uma bela mulher num romance de amor do mesmo período. Não compreenderia a relação entre as duas concepções de Beleza.

Por isso, de vez em quando, deveremos fazer um esforço e ver como é que modelos diferentes de Beleza coexistem numa mesma época e como é que outros se vão mutuamente encontrando ao longo de épocas diferentes.

A casa das musas

Autor: Ana Hatherly
Editora: Editorial Estampa
Classificação: ****

Ana Hatherly é um dos nomes mais importantes da vanguarda artística e literária da segunda metade do século XX. Poeta, ensaísta e romancista, fez parte do Grupo de Poesia Experimental durante os anos 60 e 70. A sua produção artística desenvolve-se no campo das artes visuais, pintura, desenho, poesia e até cinema. A sua principal motivação é explorar as possíveis ligações sonoras e visuais da Palavra, estabelecendo pontos comuns entre a literatura e as artes visuais.
Neste seu ensaio "A casa das musas", Ana Hatherly dedica-se ao estudo da poesia visual do período barroco português e a relação que esta tem com a poesia visual do século XX. O seu objectivo não é justificar a poesia visual feita no século XX mas sim conhecer as suas raízes e trajecto ao longo dos tempos.
Mas o que é a poesia visual? O Concretismo e o Experimentalismo expandiram o conceito de poema como objecto escrito e a sua representação visual tornou-se um aspecto decisivo da sua estrutura, ou seja, pode resumir-se o que é poesia visual através das palavras da própria Ana Hathely: "retirar o poema da página e apresentá-lo como objecto tridimensional ou como uma performance". Um livro cativante como sugestão de leitura para quem se interesse por esta temática.

Cemitério de pianos

Autor: José Luís Peixoto
Editora: Bertrand Editora
Classificação: *****

«à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal.»
Aqui fica esta sugestão de leitura, de um jovem autor português do qual eu gosto muito:
José Luís Peixoto. A sua forma de escrever é extremamente poética, mesmo quando o texto é em prosa, brinca com as palvras de forma subtil, construindo jogos narrativos que nos envolvem e prendem como uma teia.

As pequenas memórias

Autor: José Saramago
Editora: Editorial Caminho
Classificação: ***

Este é um livro de recordações que abrange o período entre os quatro e os quinze anos da vida de José Saramago. Como o próprio autor referiu: "Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou". Um livro de memórias, relembradas de forma singular, num estilo a que o Nobel português nos habituou há muito.

Notas sobre um país grande

Autor: Bill Bryson
Editora: Quetzal Editores
Classificação: ****

Descobri Bill Bryson no suplemento Y do Público e achei que Notas sobre um país grande seria um livro interessante de ler. Este autor é muito conhecido por ser um escritor de viagens, género que até então não me tinha cativado, mas fiquei fã da sua escrita, carregada de humor e ironia. Neste livro encontramos uma compilação de artigos que o autor escreveu para um jornal inglês aquando do regresso ao seu país natal – EUA – após duas décadas a viver em Inglaterra. O que Bill Bryson nos relata, no seu estilo inconfundível, são as suas peripécias, situações caricatas e perplexidades perante a tentativa de se adaptar ao american way of life, no seu regresso à terra onde nasceu. Um livro desconcertante, que não deve ser lido em público, pois pode causar embaraço pelos ruídos estranhos que se possam emitir...